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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Estrada para RIP – Batman de Morrison Parte 5: O Clube dos Heróis!




Postado em 28/09/2009, por Morcelli
Em: Análise , Destaque

  • Publicação original: Batman #667-#669
  • Publicação brasileira: Batman nº 70 e 71, Panini
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A união de um dos maiores escritores de quadrinhos americanos com um dos artistas mais influentes e inovadores do mercado só poderia gerar uma história bombástica, não é mesmo? Batman de Todas as Nações não é bombástica, mas figura facilmente entre os melhores contos mensais do personagem em 70 anos de vida – e tem apenas 3 capítulos! Voltando com nossa análise de tudo que Grant Morrisonconstruiu com o Homem-Morcego, chegamos com um de seus melhores trabalhos para estudo e dissecação. Acompanhado dele aqui está J.H. Williams III, que, como meu amigo Joacélio já me disse, é o mais próximo de um artista plástico nos quadrinhos. Vamos começar?
A História
Este arco de três partes utiliza muito o conceito do jogo Detetive e do livro O Caso dos Três Negrinhos de Agatha Christie. Portanto, se você já teve contato com essas duas coisas, será capaz de revelar alguns mistérios da história bem antes de chegar ao fim dela =D
Aqui, Morrison traz de volta os heróis esquecidos que serviram à inspiração que a causa do Batman jogou sobre eles, bem como aproveita para construir um mistério numa ilha deserta levantando os conceitos de pessoas moralmente superiores por seu dinheiro, até caracterizando o anfitrião John Mayhew como alguém muito parecido com Howard Hughes – um milionário que não via limites para suas aventuras, chegando a financiar seu próprio filme “A Luva Negra”, estrelado pelo ator Mangrove Pierce, e até montar sua própria equipe de super-heróis, o Clube dos Heróis!
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De forma bem resumida, Batman e Robin são convocados a uma reunião com os Batmans das várias nações do mundo que aconteceria na ilha do Senhor Mayhew. A ressurreição deste conceito da Era de Prata funciona como uma luva para o desejo da construção do mistério em três capítulos, que mostra toda a influência de Bruce como um símbolo de extrema superioridade e quase religioso para os outros vigilantes, mas ele age como uma espécie de Messias tentando fazer com que todos estejam a seu nível e não discriminando-os em nenhum momento.
Tratando-se de uma história que é um grande mistério, não vamos fazer nenhum resumo dos grandes acontecimentos desta revista aqui, afinal, a experiência é muito válida para todos os leitores de quadrinhos. Procurem nos sebos pelas revistas Batman nº 70 Batman nº 71 da editora Panini e divirtam-se com esta maravilhosa história!
Referência e Análises:
batman-667-jogoCapítulo 1 (A Ilha do Senhor Mayhew):
1-A não ser que haja um outro significado mais profundo, vermelho e preto são as cores dos jogos de azar – e vemos o Coringa brincando com elas mais tarde também – algo que é o oposto do Batman, que nunca toma grandes riscos sem uma perfeita preparação.
4-O Cavaleiro é um personagem queridinho de Morrison. Após seu primeiro encontro em Detective Comics #215, Cyril Sheldrake apareceu com o Batman na Liga da Justiça, quando foi escrita pelo autor, e JLA: Classified. Em Batman #655 (primeiro capítulo de Batman & Filho), ele não pôde responder à ligação de Bruce.
6-O Mosqueteiro basicamente conta toda a história de Descanse em Paz aqui: “trancado em um manicômio com dois dos meus grandes inimigos ao lado de um exército de aberrações homicidas” e depois “eu batman-667-batmannunca precisarei combater o crime de novo”. Não foi isso que aconteceu com Bruce Wayne? =D
10-O Ranger sumariza as suas renovações – mais nisso em breve.
12-A influência do Batman sobre todos os outros é descaradamente mostrada aqui, quando sua presença faz com que todos os que estão ali sintam-se chocados por vê-lo pessoalmente.
15-O homem misterioso coloca a pele de Mayhew em seu rosto, como fez Orlando dos Invisíveis e como (spoiler aqui, para leitores brasileiros – marque o texto para ler) o Doutor Hurt faz com Mangrove Pierce em Batman #681, a última parte de Descanse em Paz. O grotesco ato de colocar o a pele de alguém sobre seu rosto se conecta muito à possessão mental na qual o responsável pela ação tem problemas em sua psiquê com personalidades, atitudes brutais e tudo mais. Uma possessão mental real acontece no ignorado arco de Ra’s Al Ghul. Sobre o quadro na parede, vale a dica: trata-se de The Triumph of Death, de Pieter Bruegel, e é uma pintura que mostra pessoas das mais variadas classes sociais morrendo indiscriminadamente.
18- “E não comam mais nada!”. Você já percebeu, lendo Descanse em Paz, que em vários momentos vemos alguém dando uma beliscada em alguma coisa? Há uma teoria curioso sobre isso, mas falaremos sobre o assunto daqui a algumas edições.
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20-Estranhamente, Morrison acaba com o Legionário logo aqui no começo do arco. Vale lembrar que na clássica história do Batman de Todas as Nações, o Legionário estava infiltrado na equipe.
Ultima página: “Vantagem, o mal. Façam suas apostas com o Luva Negra!”. A coisa toda da aposta também envolve a simbologia de Deus e o Diabo, como fica claro perceber, até pelas cores escolhidas. Para conhecedores da Bíblia, a devastação da vida de Jó é o que veremos acontecer com a vida do Batman nos próximos números da revista com Morrison.
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Capítulo 2 (Agora estamos mortos!):
batman-668-capaSeria fácil continuar com as vidas dos integrantes do Clube dos Heróis de onde elas foram deixadas, mas seria falso. O Batman mudou demais desde anos 1950, portanto, por que eles não mudariam? Só porque são personagens esquecidos e deixados de lados durante anos, eles não teriam direito à uma evolução natural? Morrison escreve esses personagens como se fossem seres reais, o que ajuda muito na identificação deles pelos leitores. Como o Homem dos Morcegos alerta na próxima edição, “apenas uma criança nos veria como heróis”. Ele realmente quis dizer isso, de uma forma circular. Apenas uma criança os veria como bastiões da bondade perfeita, no sentido real da palavra “bom”. Eles realmente tentam ajudar, mas são apenas humanos, como vemos aqui.
2-Uma lembrança de Cyril, que veremos mais abaixo sobre como ela foi liberada.
4-Morrison realmente se utiliza da hiper-continuidade aqui, pressionando o Barman para lidar com uma história cheia de inconsistência… criando uma nova dentro da história real! César nas escadarias do fórum, e correspondentemente o Legionário foi morto com 23 facadas, aonde, um mês atrás no presente, César foi esfaqueado 17 vezes. Sacou?
4-5-Preto e vermelho novamente. Curioso perceber que o Robin atual e o Corvo Vermelho se vestem apenas com essas cores de forma predominante. Muita gente especulou que quem estivesse por trás de tudo que aconteceu do Batman do começo ao fim da passagem de Morrison pelo título dele fosse culpa de Tim. Sinceramente, a coisa é bem descabida, porém, vale ressaltar, Tim apareceu muito mais que Dick nesta série, o que é uma brincadeira do autor entre os próprios parceiros do herói. A roupa de Beryl também é formada por essas cores predominantemente – o que nos dá uma dica para uma notícia recente.
batman-668-037-“Controlado por um Gorila” se refere à JLA Classified #1-#3, e o gorila era Grodd.
9-Charlie Calígula é um membro do Clube dos Vilões. Além disso, a pista deixada pelo Legionário no melhor estilo Velma do Scooby-Doo, deixa o Batman com seu aspecto de detetive dos primeiros anos.
12-Essa é uma das teorias mais interessantes. “Foi assim que papai morreu! (…)”. Assim como os Três Fantasmas engatilham os piores medos do Batman, o Luva Negra faz um esquema para fazer com que Cyril se lembre de seus traumas que o levaram à uma depressão clínica. O Luva Negra sempre conhece seu inimigo por dentro e por fora.
Spring-Heeled Jack (alguém pode confirmar o nome dado aqui no Brasil?) era uma lenda urbana inglesa da Era Vitoriana, que se tornou tão popular que o prefeito de Londres convenceu a cidade a se reunir para discutir a veracidade disso. O monstruoso Jack, segundo dizem, podia pular bem alto e distante, além de soltar fogo azul da boca. Suas orelhas se parecem com facas e ele capturava mulheres jovens com suas garras de ferro. Muitos locais o chamavam de Diabo, mesmo que certas ilustrações o definem como alguém muito parecido com o Batman.
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Será que o Terceiro Homem, visto em Batman #666, matou o pai de Cyril? A carapuça serve muito bem. Ele é um Batman que solta chamas e tem luvas de metal. As motivações caem bem também: Mayhew quer silenciar as acusações do Cavaleiro original, colocando o Terceiro Homem então atrás dele, e na falta de uma imagem mais definida para o vilão, Cyril o define com o lendário personagem inglês – lembrando que o personagem também é bastante supersticioso.
13-“Você pode até ser perdoado por pensar que ele está cometendo suicídio e tentando nos levar juntos com ele”. Isto é exatamente o que acontece no livro de Agatha Christie. A coisa da estátua que cria vida é bem a cara das histórias do Scooby-Doo também.
14-15-Os avatares do bem e do mal, Batman e o Luva Negra, batalham em um duelo que transcende o plano normal de um quadrinho de heróis. Estes ícones lutam como deuses do mundo dos quadrinhos. Mais sobre isso será mostrado no próximo capítulo e, mais ainda, no último capítulo da grande saga.
19-20: Pierrot Lunaire, Scorpiana e El Sombrero são todos membros do Clube de Vilões.
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Capítulo 3 (O Cavaleiro das Trevas tem que morrer):
batman-669-capaEm seu trabalho com o personagem, Morrison sempre tenta estabelecer a inevitável necessidade do Batman dentro do Universo DC. A interpretação do “Bat-Deus” é muito criticada por uma série de leitores, mas quando falamos dos termos dos outros heróis da DC, a perfeição humana do Batman se faz mais do que necessária. Portanto, por que num mundo de seres tão poderosos e icônicos, ele não poderia ser assim com o brilhantismo de uma pessoal normal?
Morrison tenta responder esta pergunta neste run: sem o Batman, as coisas vão pro inferno. Em 52, enquantro Batman viaja pelo mundo, os monstros de Manheim tomam controle de Gotham City. Em Batman #666, o Armageddon chega à Gotham. Aqui, o Clube dos Heróis poderia ter sido um sucesso, mas a falta do Batman nas reuniões fez com que eles não se tornassem ninguém. Suas qualidades quase sobrenaturais de brilhantismo humano fazem dele melhor que os outros, a mesma qualidade que o faz transcender as páginas de quadrinhos numa simbologia religiosa, o que . Como foi dada a dica pelo Terceiro Fantasma em Batman #666, a ausência do Batman pode mudar a ordem do mundo.
2-O Cavaleiro joga a culpa do assassinato da esposa de Mayhew no próprio Mayhew. Mais tarde, batman informa que Mangrove Pierce foi preso, provavelmente injustamente, por esse crime.
8-Rei Kraken é outro membro do Clube dos Vilões, deixando apenas Swangman e Le Bossu ainda em segredo.
10-Curioso como o autor brinca com as velhas armadilhas mortais que nunca matam ninguém. Aqui El Sombrero tem Robin e Beryl à sua mercê, com o Corvo Vermelho perto de morrer num poço cheio de piranhas (que também é bem Scooby-Doo), e o Luva Negra já teve o Morcego muitas vezes perto da morte, mas sempre se recusam a simplesmente executar a ação.
10 (novamente)-Os layouts de Williams são brilhantes. Ele realmente parece obcecado com iconografia, e nessas páginas ele resume todo o contexto da narrativa em tirinhas loucas – quais caras bons estão enfrentando os caras maus, e também resume toda passagem de Morrison pelo personagem: vermelho contra preto, o bem contra o mal, preenchendo todas as essências de cada lado com as mais variadas simbologias possíveis. Ele chega ao ponto de desenhar luvas negras com insignias nas pontas dos dedos, para que o leitor saiba exatamente que puxa as cordas nesse show. Na edição anterior ele também experimenta uma coisa muito bacana, que é a cataclísmica luta de Batman contra Luva Negra, mas com muitos mais nuances. Trata-se de um artista que conhece as possibilidades e as extrapolações dos limites que a mídia visual permite.
11-“O sucesso estava todo na preparação”. Ecos do conselho de Batman à Damian.
20-Mayhew resume a atitude da organização Luva Negra: “Pessoas ricas como eu vivem acima da lei, acima da moralidade.”
Essa é uma das melhores histórias do Batman como um detetive feita em décadas, sem sombra de dúvidas. A riqueza de conceitos e referências colocadas de forma sutil ou descarada só dá ao leitor a chance de se armar de todas as culturas que o autor absorve diariamente e reverte em suas ferramentas de criação para histórias. Além disso, um desenhista como Williams III só enriquece a narrativa, fazendo deste pequeno arco uma grande obra em 3 partes.

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