Gaucho Negro!

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Força e Honra

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Os Zumbis da Pedra




Por Katiana Pereira

“Povo que não tem virtude acaba por ser escravo”, afirma o Hino riograndense. É com essa busca pelo total fim da escravidão que o comunicador e agora escritor, Manoel Saores, da Cufa do Rio Grande do Sul em parceria com Marcos Sena lançam seu livro. As ilustrações são de Daniel Soares e Dango Costa. 
Intitulado “Os Zumbis da Pedra”, Manoel faz de uma trágica história do cotidiano tornar-se alerta aos jovens e adolescentes. O escritor busca divulgar seu livro nas escolas e demais intuições de apoio a menores, até que seu livro seja incluído como didático nas escolas.
Mostrando uma realidade riograndense e não menos distante do restante do país, Manoel enfatiza o domínio do crack em nossa sociedade. “O Estado do Rio Grande do Sul considera o crack o maior problema de saúde da atualidade. O consumo de crack acaba com cérebro, fígado e pulmão. Poucos jovens usuários chegam aos 30 anos de idade”, disse Manoel em entrevista.
O nobre colega não foge da verdade ao fazer esse alerta sobre os perigos do uso de drogas. “São raras as bocas que vendem maconha ‘limpa’. A maioria mistura com crack”, completa Manoel.
Para aguçar mais a vontade de ler esse livro segue um trecho de “Os Zumbis da Pedra”, por Manoel Soares e Marcos Sena:


CAPÍTULO 1

Nilinho foi até a beira do precipício, deu uma espiada rápida para baixo e sentiu a cabeça girar. As pernas amoleceram e ele teve que se segurar para não despencar lá de cima. Sabia que lá embaixo, na escuridão daquela garganta medonha, rastejavam criaturas horrendas, cheias de pernas cabeludas, tentáculos gosmentos, dentes afiados, aranhas, escorpiões gigantes, galinaceosauros-rex e crocodilos famintos que cuspiam fogo por qualquer coisinha.


Olhou desanimado para a outra margem. Parecia impossível vencer aquela distância num pulo só, mas ele precisava chegar ao castelo da árvore o quanto antes e, para isso, teria que atravessar a temível garganta do esporão. Seu irmão, Nando estava lá agora, lutando sozinho com os cruéis e sanguinários sete lobos do terrível Conde Leopoldo XXIII. Pensou em desistir, mas a imagem do irmão, cercado de lobos assassinos por todos os lados, fez com que reunisse toda a coragem e forças que tinha para pular o abismo. Deu uns passos para trás, respirou fundo e pimba!

O corpo magro e ágil desenhou um arco no ar, os dois pés bateram com força na beirinha da outra margem, balançou pra trás desequilibrado e rapidamente agarrou-se nos galhos retorcidos de uma árvore. Ficou ali, abraçado no tronco da árvore, escutando a agitação das feras lá no fundo do abismo. Podia sentir o hálito quente e mal cheiroso daquelas criaturas. Esperou o coração compassar e seguiu viagem. O primeiro obstáculo estava vencido.
Apressou o passo, ainda tinha que andar um bocado pela estreita beirada do precipício para chegar até o castelo e ajudar o irmão. Um espesso nevoeiro agora cobria tudo e o cheiro repugnante que vinha lá debaixo entrava queimando por suas narinas e ele quase não conseguia respirar. De repente, um tentáculo pegajoso e enorme agarrou uma de suas pernas e ele foi alçado no ar e depois puxado para as profundezas do abismo; conseguiu agarrar-se nas raízes que brotavam das paredes úmidas da garganta e, com o pé que estava livre, chutou com toda a força o tentáculo pegajoso.

Livre, escalou a parede de volta e começou a correr, desviando das pontas afiadas das pedras, das plantas carnívoras, dos poços de areia movediça, das setas envenenadas de terríveis pigmeus; atravessou uma teia gigante de aranha gigante, escapou por pouco dos dentes afiados de um Esfomeadosauro-rex e das pinças enormes de uma coisa parecida com um caranguejo com cabeça de leão, e finalmente chegou ao pé da figueira onde ficava o castelo. Como um tigre, escalou o tronco da árvore e chegou a tempo de tirar o irmão de dentro da boca de um dos lobos.
Na verdade, não era um castelo, eram só umas madeiras que o irmão havia pregado no tronco da figueira que ficava no pátio do vizinho, o seu Leopoldo, que morava na casa 23, ao lado da sua, e que tinha sete pequenos vira-latas. A Garganta do Esporão era um pequeno espaço onde seu pai criava um galo e duas galinhas. Toda essa aventura se passava na cabeça de Nilinho quando ele pulava da janela do seu quarto, que era quase encostada no muro do seu Leopoldo, andava dez passos sobre o muro e chegava até a figueira.
Gostava de ficar ali na figueira com o irmão Nando conversando e vendo a cidade lá embaixo. Aventura mesmo era estar ali com o irmão mais velho escutando ele falar sobre as namoradas, a turma da escola. Legal mesmo era ser o “fiel escudeiro” do irmão. Um dia, Nando levou ele pra conhecer uma garota e o apresentou assim: Esse é meu irmão, Nilinho, meu “fiel escudeiro”.

Achou aquilo muito legal, não sabia o que era escudeiro, mas sentiu que era uma coisa importante e boa, algo assim como “o melhor amigo do mundo”. Às vezes ficavam horas sem dizer uma palavra, só olhando as luzes da cidade. Nilinho tinha orgulho de ser irmão do Nando. Nando era forte, bem humorado e não era feio; pra falar a verdade, Nilinho até que achava o irmão bem bonito. Com ele sentia-se protegido não tinha medo de nada, nem de perguntar nada, qualquer bobagem que lhe viesse à cabeça, como aquela vez que perguntou para o irmão se havia grama na lua pro cavalo do São Jorge comer.

Agora lá estava ele, sozinho. Anoitecia, e as luzes da cidade começavam a acender. Por onde andaria o irmão?

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